A convite da Philos, o curador Walter Arcela selecionou 10 trabalhos que atravessam questões políticas, sociais e estéticas da arte contemporânea na ART.PE

A partir de um olhar atento às linguagens, aos materiais e às questões que atravessam a produção artística contemporânea, o curador Walter Arcela, a convite da Revista Philos, selecionou dez obras que se destacaram na ART.PE 2026. Sua escolha percorre diferentes territórios, gerações e investigações estéticas, reunindo trabalhos que mobilizam tanto referências culturais e memórias locais quanto inquietações políticas, sociais e ambientais.

Mais do que um panorama de destaques da feira, os destaques aqui apresentados propõem um percurso crítico pela diversidade da produção artística apresentada na quinta edição da ART.PE. Ao compartilhar suas impressões sobre cada trabalho, o curador oferece aos nossos leitores uma oportunidade de aprofundar o olhar sobre as obras e seus contextos, para pensar a arte contemporânea em suas múltiplas dimensões

Ramsés Marçal, Sem título, escultura em vidro e areia colorida, 2026

#1 Ramsés Marçal Amparo 60 (PE)

Obra inédita de Ramsés Marçal chama atenção pela técnica de feitura: a areia pigmentada, apresentada em uma caixa de vidro, dialoga diretamente com a tradição vernacular dos artesanatos turísticos do Nordeste brasileiro. A temática da obra, por sua vez, suscita reflexões sobre as apropriações, violências e simbologias que atravessam o território canavieiro.

Lourival Cuquinha & Marcon Piantan, Ingerência, 2026. Cédulas de real e dólar, linha de algodão, moeda de R$ 1, impressão jato de tinta sobre papel-moeda, madeira e cobre.

#2 Lourival Cuquinha & Marco Piantan Central Galeria (SP) 

A Central Galeria apresenta um solo de Lourival Cuquinha inteiramente atravessado pelas tensões políticas do momento que vivemos. Entre os destaques, uma faixa presidencial confeccionada com cédulas de real e dólar, acompanhadas de um documento de notícia-crime que aborda suspeitas de ingerência estadunidense na política brasileira. A obra custa R$ 1 milhão, valor que, segundo o relatório mencionado no projeto, corresponde à quantia supostamente enviada para interferir no cenário político nacional. Ao transformar essa cifra no próprio preço da obra, Cuquinha propõe uma reflexão irônica sobre o valor da democracia.

Mayara Carvalho, Concerto a céu aberto para solos das aves, 2026. Aço.

#3 Mayra Carvalho Carmo Johnson Projects (SP)

Estreante na feira e na galeria, Mayra Carvalho apresenta uma escultura em aço oxidado por meio de banhos na Baía de Guanabara. Descendente de uma família de soldadores, a artista subverte convenções de gênero associadas aos ofícios ao trabalhar com materiais pesados e rígidos, historicamente vinculados à masculinidade. A obra resulta da rotação de três placas de aço com a mesma forma gravada, criando uma composição em que o olhar atravessa sucessivamente as aberturas até alcançar o outro lado. 

Eduardo Nóbrega, Força Motriz, 2026. Acrílica sobre tela.

#4 Eduardo Nóbrega Ceci Galeria (PE)

Destaco esta acrílica sobre tela de Eduardo Nóbrega por reconhecer no jovem pintor pernambucano uma renovação da tradição pictórica local. Sua paleta pouco deve à genealogia moderna da pintura recifense, ainda fortemente ancorada em nomes como Francisco Brennand, Vicente do Rego Monteiro e José Cláudio. Em sua pintura, formas orgânicas e estruturas geométricas se sobrepõem, criando um jogo entre figura e fundo, continuidade e fragmentação. Nóbrega parece encontrar nesse vocabulário uma maneira singular de pensar a pintura a partir de suas próprias operações. 

Fernanda Corsini, Porta-lua, 2026. Giz pastel oleoso, ponta seca e verniz sobre papel.

#5 Fernanda Corsini Fasam (MG–SP) 

Uma das surpresas que tive na feira ao encontrar Porta-lua (2026), de Fernanda Corsini, foi descobrir que a obra é feita em papel, e não em madeira, como sua aparência sugere. Utilizando giz pastel oleoso, ponta seca e verniz, a artista constrói uma superfície de aspecto entalhado, cuja textura e profundidade dão corpo a uma paisagem onírica, entre fissuras, portais, mistérios e elementos naturais. 

Allisson Nogueira, Sonhar com casa, 2026. Óleo sobre tela.

#6 Allison Nogueira Propágulo + O Criatório (PE) 

Allison Nogueira tem desenvolvido uma pintura regida pelas experiências cotidianas e por uma afirmação serena da própria existência, frequentemente recorrendo ao autorretrato. Nesta obra, produzida durante a residência Pupa, organizada pela Propágulo e O Criatório, o artista investiga a ideia de casa e descanso, incorporando elementos da paisagem que o acolheu. 

#7 Sofia Nehring Sardenberg (SP) 

Outra estreante na feira, Sofia Nehring apresenta uma escultura da série Artificially Natured, na qual unhas postiças, resina, espuma e vidro são articulados em uma composição que remete às formações coralinas. Ao deslocar materiais oriundos da indústria da beleza e dos procedimentos de transformação do corpo para um imaginário marinho, a artista tensiona as fronteiras entre natureza e artifício, bem como as pressões incidentes sobre os organismos vivos. 

Marcos da Matta, Coletores de neblina, 2026. Acrílica sobre tela.

#8 Marcos da Matta RV Cultura e Arte (BA) 

Outro estreante na feira, Marcos da Matta vem produzindo uma série de pinturas dedicadas aos trabalhadores rurais e informais do território da Bahia. Há uma relação de generosidade na maneira como retrata esses personagens, conferindo dignidade e delicadeza às cenas de trabalho. Esta pintura, em particular, me fez lembrar da música Caboclo, de Arthur Verocai, nos versos “Caboclo quando sai, carrega o sol pela manhã, planta algodão, planta nuvens pelo chão”. O algodão, pintado com um pouco de glitter, brilha em meio ao céu cor-de-rosa, acentuando a dimensão poética da cena. 

Karine Abatti, O descanso das mães, 2026. Óleo sobre tela.

#9 Karine Abatti M.I.U Galeria (SC)

Estreante na feira, a jovem artista catarinense Karine Abatti apresenta pinturas que abordam o etarismo e as relações entre gênero, envelhecimento e produtividade. Ao aproximar uma senhora idosa de vacas acomodadas em uma sala de estar, a artista ironiza a redução dos corpos femininos às funções reprodutivas e produtivas, conferindo ao descanso uma dimensão política. A obra integra a seleção da Galeria MIU, que reúne jovens artistas catarinenses cujas investigações sobre o território, suas paisagens e contradições apontam para uma renovação da cena artística de Santa Catarina. 

Lyara Cavalcanti, Ovipositora, 2026. Escultura em madeiras de timborana, jaqueira e jatobá e resina vegetal de rícino.

#10 Lyara Cavalcanti Artepofagia (AL)

Estreante na feira e ganhadora do Prêmio PIPA Online em 2025, Lyara Cavalcanti apresenta Ovipositora (2026), escultura produzida com madeiras de timborana, jaqueira e jatobá, além de resina vegetal de rícino. A artista aproxima as formas do ovo e do olho, criando um vocabulário que fabula sobre novos ciclos de vida e maneiras de enxergar. Sua investigação parte dos processos de decomposição, transmutação e regeneração da matéria, reconhecendo na madeira uma espécie de memória orgânica, capaz de guardar vestígios de sua existência e transformação. 

O curador Walter Arcela pelas lentes de Jennifer Brito.

Walter Arcela é crítico e curador. Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais pela Universidade Federal de Pernambuco (PPGAV UFPB/UFPE) e Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGAV-UFRJ) onde desenvolve pesquisa sobre estatuto da curadoria contemporânea. Membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA). Foi curador na Galeria Amparo 60, recife, durante os anos de 2023 a 2025, e curador no Centro Cultural São Francisco, João Pessoa, no ano de 2023. Possui ampla atuação enquanto curador, assinando mostras para diversas instituições independentes e institucionais. Foi premiado pelo Prêmio Elo Cidadão 2020 (PROEX-UFPB) através da Galeria Lavandeira.

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Publicado por:Philos

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